Endocardite infecciosa
Definição
- Infecção da superfície do coração que pode ser de valvas, septo, cordoalha tendínea, endocardio e associada a cateter como marca-passo
- Aguda: evolução em semanas com repercussão sistêmica e embolização de focos infectados. Pode ocorrer a destruição total da valva
- Subaguda: sintomas indiciosos, geralmente não forma embolos
Epidemiologia
- Acomete mais homens que mulheres
- Fatores de pior prognóstico: infecção por aureus e eventos embólicos associados
- Aumento dos casos que ocorrem após internação de longa permanência devido ao uso de dispositivos EV
Qual a microbiota da endocardite subaguda
- Mais comuns: aureus (mais frequente atualmente), streptococcus viridans e enterococo
- Grupo HACEK - menos comuns
- Haemophilus aphrophilus
- Actinobacillus actinomycetemcomitans
- Cardiobacterium hominis
- Eikenella corrodens
- Kingella kingae
- Relacionado à bactérias do TGI
Fisiopatologia
- Ocorre lesão do tecido cardíaco com deposição de fibrina e maior possibilidade de aderência de bactérias circulantes com a formação de um trombo infectado
- Defeitos valvares = predisposição à colonização de bactéria
- Uso de medicações ou drogas EV que possuem partículas sólidas em sua composição = fluxo sanguíneo turbilhonar predispões a lesão do tecido o que aumenta a chance de colonização
- Uso de dispositivos intra-cardíacos (como o marca-passo) = causa lesão direta no tecido
- Inflamação crônica de doenças degenerativas como doença reumática = predispõe à colonização
Manifestações clínicas
- Forma aguda: sintomas sistêmicos de toxêmia
- Forma subaguda: sintomas arrastados e inespecíficos, pode ter perda de peso, febre, fadiga e anorexia, pode haver esplenomegalia
- Manifestações comuns na forma aguda: febre, sopro novo ou mudança no padrão de sopro prévio, artralgia, mialgia
- Manchas de Janeway: máculas em regiões tenares e hipotenares
- Nódulos de Osler: nódulos dolorosos e violáceos na porção terminal das falanges
- Quando suspeitar: paciente com febre de origem indeterminada com fatores de risco
Fatores de risco
- prótese valvar
- dispositivos cardíacos
- uso de drogas injetáveis
- manipulação dentária em dentes com má conservação
- doença cardíaca prévia
- doença reumática
- HIV
- hemodiálise
- defeito em valva nativa
Quando suspeitar
Febre de origem indeterminada com:
- Prótese valvar cardíaca ou outro dispositivo cardíaco
- Doença cardíaca estrutural que predispõe à lesão e colonização do tecido cardíaco
- Endocardite prévia
- Uso de droga EV
- Abscesso periférico encontrado ou sintomático como: hepático, cerebral e renal
Critérios de Duke modificado 2023
CRITÉRIOS MAIORES
Cultura de bactérias
- Hemocultura positiva - um dos itens positivo
- Microrganismo típico: ≥ 2 amostras positivas de sítios diferentes
- Microrganismo atípico: ≥ 3 amostras positivas de sítios diferentes
- Exames laboratoriais para bactérias específicas
Exames de imagem
- ECO OU TC:
- Presença de vegetação, perfuração, aneurisma, abscesso ou fístula intracardíaca
- Nova regurgitação valvar ao ECO em comparação com imagem prévia
- Nova alteração parcial da prótese valvar em relação a imagem prévia
CRITÉRIOS MENORES
- Fator de alto risco:
- usuário de drogas EV
- prótese valvar, cirurgia valvar prévia
- próteses e procedimentos intracardíacos
- valvopatias, mesmo sem uso de prótese
- cardiopatias congênitas
- dispositivos cardíacos implantáveis
- endocardite prévia
- Febre ≥ 38 °C sem outro foco
- Presença de embolos e abscessos em outro território: como cerebral e hepático
- Alterações imunológicos: glomerulonefrite, nódulos de Osler, manchas de Roth, fator reumatoide +
- Novo sopro regurgitante
Existem outros critérios com exames não disponíveis no SUS
- Diagnóstico definitivo: dois maiores OU 1 maior + 3 menores OU 5 menores
- Diagnóstico possível: um maior + um menor OU 3 menores
- Hemocultura positiva - um dos itens positivo
Exames
- 2 pares de hemocultura de dois sítios diferentes, cada par deve ser coletado com 1h de diferença
- Hemograma
- Função renal
- TGO/TGP
- VHS
- PCR
- ECO transesofágico
Embolização sistêmica
- Artéria esplênica
- Infarto renal
- Comprometimento dos vasos mesentéricos
- IAM
- Dor articular
- Abscesso cerebral ou hepático
- AVC por embolização
Tratamento
- Tratamento prolongado com ATB devido ao sítio de infecção ser de difícil ação do sistema imune, além da colonização ser envolta por uma capa de fibrina
- A febre é o primeiro sintoma a desaparecer, porém o tratamento deve-se estender pelo tempo adequado
- Culturas devem ser coletadas diariamente até a negativação
- A escolha do ATB deve ser guiada pela cultura e a prevalência bacteriana no serviço
- Tratamento empírico pode ser considerado se alta suspeita diagnóstica
- Indicar profilaxia antibiótica apenas para pacientes de alto risco (prótese valvar, história prévia de endocardite e algumas cardiopatias congênitas)
Fonte consultada: Medicina de Emergência USP 11 edição