AVE
Fonte: Medicina de Emergência USP
Isquêmico
Sinais e sintomas gerais
Definição: déficit neurológico focal súbito
- Cefaleia súbita
- Paresias e parestesias aguda
- Desvio da rima labial
- Incapacidade de movimentar os músculos da fala
- Disfagia
- Rebaixamento do nível de consciência
Sintomas de acordo com o território cerebral acometido
- Artéria cerebral média: pode pegar as duas áreas da fala, sintomas sensitivos e motores que podem poupar o membro inferior
- Artéria cerebral anterior: sintomas sensitivos e motores, geralmente de membro inferior
- Artéria cerebral posterior: sintomas visuais
- Ramos perfurantes: sintomas de déficit motor puro, pois atingem a cápsula interna (hemiplegia contralateral pura)
- Tronco encefálico: afeta os pares cranianos
Trombose X embolia
- cardioembólico: FA, infarto de parede anterior
- ateroembólico: principalmente pela presença de placa instável na carótida
- tromboembólico: geralmente ocorre nas artérias perfurantes
Anamnese e conduta direcionada na emergência
- Tempo do início dos sintomas, quando foi a ultima vez que o paciente foi visto bem
- Uso de medicações e anticoagulantes
- Avaliar sinais vitais + nível de consciência + exame neurológico para identificar déficit focal
- REALIZAR DXT PARA AFASTAR HIPOGLICEMIA
- Realizar NEUROIMAGEM o mais rápido possível = excluir causas hemorrágicas
- TC exame mais rápido e a primeira escolha
- RNM quando não sabe quando o paciente foi visto bem pela última vez, porém a disponibilidade do exame é muito pequena
Escala de NIHSS
- Estratificar objetivamente o grau dos sintomas
- Quanto maior a pontuação, pior o nivel do AVC
Achados na TC para AVE hemorrágico X isquêmico
- Isquêmico: área HIPOdensa (escura) que geralmente só aparece depois de 24h
- Hemorrágico: área HIPERdensa (branca)
Abordagem inicial do AVC: diferenciar isquêmico e hemorrágico com tomografia de crânio sem contraste.
Tratamento inicial
- Estabilização clínica: monitorização da glicemia (a cada 6h), temperatura (a cada 4h) e concentração de sódio (risco de edema cerebral por hiponatremia)
- Manter saturação acima de 95%, usar O2 suplementar caso necessário
- Considerar IOT em caso de risco de aspiração significativa por disfagia
- Não hidratar demais nem usar muito soro glicosado devido ao risco de hiponatremia e hiperglicemia
- Exames: ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia, ECG, hemograma, marcadores de necrose cardíaca, coagulograma e gasometria arterial
- Pressão arterial: limite superior de 220x120 - hipertensão permissiva, se candidato à trombólise manter abaixo de 185x110
- Risco de transformação hemorrágica: quando a PA se eleva acima de 220x120
- Trombólise:
- janela terapêutica: até 4,5h do início dos sintomas
- dose de alteplase: 0,9mg/kg máximo de 90mg sendo 10% da dose de imediato (em bolus) e o restante em 60 minutos em bomba de infusão
- se acordou com o déficit: indicação formal de fazer RNM DWI e flair para se comparar as duas imagens, se aparece no DWI, mas não aparece no flair é pq a lesão é recente
- usar dois acessos venosos periféricos
- evitar pegar acesso central em até 24h da trombólise
- Em caso de hemorragia durante a trombólise:
- checar hematócrito, TAP, PTTa e fibrinogênio
- parar de infundir o rTPA
- investigar de onde vem o sangramento
- incluir 5 unidades de crioprecipitado (repor fibrinogênio)
- caso o sangramento persista, infundir uma unidade de plaqueta ou 2-3 de plasma fresco congelado
- infundir concentrado de hemácias para manter o hematócrito adequado
- infundir fluidos e tratar hipotensão
- se hemorragia no SNC avaliar neurocirurgia
- antiagregação plaquetária: se for fazer trombóllise, começar após 24h com AAS e heparina profilática
- trombectomia mecânica:
- janela: 24h, melhor fazer em 6h
- artérias: cerebral média na porção inicial e cerebral anterior
- deve ser feita uma angio-TC com contraste para avaliar a anatomia vascular
- O tempo do início dos sintomas deve ser de até 6h NIHSS > 6
- AVCI fora da janela
- Iniciar AAS 75-300mg/dia
- Reduzi PA somente se PAS > 220 ou PAD > 120
- Anticoagulação plena (AVC causado por FA): AHA recomenda aguardar de 4-14 dias para iniciar
- Manter glicemia entre 140-180
- Evitar hipertermia
- Avaliação de equipe multiprofissional
- Estabilização clínica: monitorização da glicemia (a cada 6h), temperatura (a cada 4h) e concentração de sódio (risco de edema cerebral por hiponatremia)
Trombólise pode ser indicada em casos selecionados de AVC isquêmico dentro da janela terapêutica.
Monitorização durante a trombólise
Pressão arterial:
- Iniciar apenas se PA < 180x105, manter esse valor nas 24h seguidas
- Aferir PA a cada 15min por 2h depois a cada 30mg or 6h e depois a cada hora até completar 24h do tratamento
Sinais de transformação hemorrágica: interromper trombólise e realizar TC
- Náuseas
- Vômitos
- Hipertensão aguda ou refrataria
- Cefaleia intensa
- Piora neurológica
Quais são os cuidados a serem tomados após o tto com alteplase
- Aferição da PA conforme horários do item anterior
- Evitar sonda nasoenteral e vesical
- Evitar acesso central
- Evitar uso de AAS e anticoagulantes
- Repetir TC em 24h
Controle máximo e mínimo da PA
- Deve ser mantida abaixo de 180x100 mmHg para realização de trombólise
- Em idosos não deve haver abaixamento súbito da PA (aumento da área de penumbra) - mantendo entre 160 e 180
- o fluxo pelas colaterais é dependente da PA, por isso ela aumenta e por isso diminuições bruscas não são recomendadas
- nitroprussiato de sódio 0,5mcg/kg/min se a diastólica for > 140, se não for usar labetalol
Contraindicações absolutas de trombólise
- histórico de AVEi e TCE nos últimos 3 meses
- AVEh prévio
- NIHSS < 5 com deficit neurológico não incapacitante
- Sinais de hemorragia na TC
- Cirurgia intracraniana ou de medula nos últimos 3 meses
- Plaquetas < 100.000
- Neoplasia gastrointestinal ou sangramento gastrointestinal nos últimos 30 dias
- Se recebeu dose terapêutica de heparina de baixo peso molecular nas ultimas 24h
- Suspeita de dissecção de aorta
- Neoplasia intracraniana
Tratamento ambulatorial
- aterotrombótico: antiagregação plaquetária com AAS 100-300mg/dia e controle dos fatores de risco, pode ter uma intervenção cirúrgica da placa de ateroma
- cardioembólico: anticoagulação plena com cumarínicos ou os novos, mantendo o INR entre 2-3 e controle da FA
- exames complementares: ECO, ECG e doppler de carótidas e vertebrais
- endarterectomia carotídea
- isquemia cerebral sintomática compatível com lesão carotídea encontrada
- obstrução de 70-99% unilateral
Complicações
- contraturas musculares
- broncoaspiração
- pneumonia
- infecção urinária
- desnutrição
- úlcera de decúbito
- TVP e TEP
Diagnósticos diferenciais
- Crise epiléptica: abalos musculares, automatismos e antecedentes de outras crises
- Hipoglicemia: rebaixamento + DXT baixo
- Aura de enxaqueca: sintomas transitórios e seguidos de cefaleia
- Encefalopatia de Wernicke: antecedentes de etilismos e desnutrição
- Hemorragia subdural crônica agudizada: histórico de quedas frequentes, déficit neurológico progressivo com piora súbita
- Tumor cerebral: déficit neurológico progressivo com piora súbita
- Transtorno conversível: ausência de déficits neurológicos objetivos, achados inconsistentes no exame físico
AIT
- Sintomas transitórios que duram menos de 1h sem evidencia de isquemia cerebral
- risco para AVE depois de AIT: idade maior que 60, pressão maior que 140x90, sintomas focais, duração do déficit maior que 60 minutos e diabetes
- Realizar investigação etiológico com ECG, ECO e Doppler de carótida
Hemorrágico
AVE intraparenquimatoso
Intraparenquimatoso: comprime o neurônio e o sintoma é de déficit focal. Causa de morte: HIC que leva a herniação cerebral que comprime o tronco encefálico
- cefaleia intensa, déficit neurológico focal, rebaixamento da consciência
- tto: IOT se rebaixado, colocação de cateter de PAM invasiva e cateter de PIC
- Controle da PA
- Manter paciente monitorizado
- Avaliar sintomas de HIC
- Lesão hiperintensa (branca) na TC
Etiologias de AVE intraparenquimatoso
- Hipertensão artéria crônica que leva ao enfraquecimento das artérias perfurantes predispondo ao sangramento
- A ruptura dessas artérias em pequena quantidade leva ao chamado aneurisma de Charcot-Bouchard
- Hemorragia secundária: uso de anticoagulante, uso de anticoncepcional em mulheres tabagistas ou puérperas, malformações arteriovenosas e neoplasia no SNC
Sintomas AVE intraparenquimatoso
- Cefaleia intensa com déficit focal agudo
- Pode haver sinais de hipertensao intracraniana como náusea, vomito, rebaixamento e convulsões
Tomografia
- Com contraste
- Spot sign: extravasamento de contraste (ponto mais branco dentro da região hemorrágica) = sinal de que o hematoma irá aumentar
Tratamento
- Maner PAS 140-150, abaixo de 130 é danoso
- Se for secundária ao uso de anti-coagulantes, esses devem ser suspensos
- Varfarina: vitamina K EV + complexo prtrmbinico ou plasma fresco congelado
- Dabigatrana: idarucizumabe
- Heparina: sulfato de protamina
- Não existe beneficio de realizar Anticonvulsivantes profilático
Hemorragia subaracnoidea HSA
HSA
HSA:
- causas: aneurisma sacular (35-55 anos) ou malformação arteriovenosa (15-30 anos)
- clínica: não apresenta déficit focal, cefaleia holocraniana súbita extenuante + perda da consciência + rigidez de nuca (sinal tardio)
- Escala de Hunt-Hess
- grau 1: lúcido e cefaleia leve
- grau 2: cefaleia + rigidez
- grau 3: sonolento
- grau 4: torpor e déficit focal
- grau 5: coma
- particularidade da TC: contorno bem definido do mesencéfalo
- se a TC está normal: coletar líquor e analisar a cor, se de aspecto amarelado = xantocromático = hemorragia
Etiologias de HSA
- Trauma
- Forma mais comum não traumática: ruptura de aneurisma
Sintomas HSA
- Thunderclap headache: cefaleia que se torna insuportável atingindo o pico da dor em 1 minuto
- Irritação meningea = sinais de Kernig e Brudzinski
- Hipertensão intracraniana com coma associado
- Cefaleia sentinela: sintomas menos intensa em dias anteriores
Escala de Hunt-Hess
Avaliação clínica do acidente
1- assintomático
2- cefaleia de forte intensidade ou meningismo, sem déficit neurológico, exceto paralisia de nervo craniano
3- sonolência e déficit neurológico focal
4- torpor, moderada ou grave hemiparesia
5- coma profundo, postura de descerebração
Classificação da hemorragia - Escala de Fisher
- grau 1: sem sangue na TC
- grau 2: lâmina de sangue fina < 1mm
- grau 3: lâmina > 1 mm
- grau 4: hemorragia intracerebral/ventricular
Complicações do AVEh HSA
- ressangramento: pode ocorrer até o 7º dia, conduta drenagem precoce
- vasoespasmo: ocorre irritação química dos vasos, geralmente acontece entre o 3º e 14º dia, o vasoespasmo causa isquemia, o monitoramento é feito com doppler transcraniano no qual se compara o grau de perfusão em cada medida, o tratamento é feito induzindo a hipertensão arterial
- hidrocefalia: trombose com obstrução da drenagem do liquor, solução = derivação ventricular
- hiponatremia:
- síndrome cerebral perdedora de sal, ocorre um aumento do BNP que estimula a secreção de ADH (secreção apropriada), faz natriurese, porém não consegue reter a quantidade de água necessária = hipovolemia. Pulsos finos, cava abalada e hipotensão
- SIADH: ocorre uma hipervolemia transitória que estimula a secreção de PNA que controla a volemia, então tem uma normovolemia
Conduta para HSA
- Exames complementares após o diagnóstico:
- Tratamento cirúrgico: clipagem de aneurisma que deve acontecer antes do 3º dia ou após o 14º dia, não deve ser feito na janela de ocorrência do vasoespasmo
- Controle da PA: sistólica deve ser mantida menor que 160
- Neuroproteção para AVEh subaracnoide: nimodipina 60mg de 4/4h por 14-21 dias (é um bloqueador do canal de cálcio)
Check list de atendimento
Cenário: paciente com deficit focal agudo ou rebaixamento do nível de consciência aguda
- Monitorização em sala de emergencia
- Pegar acesso venoso periférico
- Coletar DXT para avaliar glicemia
- Perguntar sobre tempo de início de sintomas
- Perguntar e avaliar no exame físico sobre déficits neurológicos
- Perguntar sobre medicações do paciente principalmente de anticoagulantes
- Realizar escala NIHSS
- Levar paciente para TOMOGRAFIA (se em serviços sem esse exame, regular via SUS fácil = tempo é cérebro. Não é possível diferenciar se AVCi ou AVCh só pelos sintomas clínicos
- Afastar etiologia hemorrágica
- Manter PA abaixo de 180x95 nos pacientes candidatos a trombólise
- Avaliar trombólise ou transferência do paciente para centro de referencia de AVC
- Manter monitorizado com controle da PA, temperatura, glicemia e sinais vitais
